terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Something's Got to Give

A ansiedade é maior do que o que pode lembrar.

Já fez isso antes, mas agora é diferente... Quer dizer... O lugar é diferente, as pessoas são diferentes... Não que possam fazer algum julgamento de valor, afinal, todos os que chegam àquela casa, escondida entre outras tantas (mas evidente aos que procuram seus serviços) querem/precisam/desejam a mesma coisa: prazer...

É difícil explicar... Quer dizer... É difícil explicar...

Mas para ela não é mais momento de explicar...

No caminho, pensava no medo, pensava se seria esta a última vez e justificava sua decisão com um enfático "é uma ocasião especial. Que mal há nisso?".  Seguiu repetindo a afirmação e a indagação... Apenas o bastante para abafar qualquer outro pensamento no trajeto até a casa amarela, de portas e janelas azuis.

Entrou. Trocou algumas palavras com o mesmo homem com quem havia tratado ao telefone...

Rapidamente, o sujeito sumiu pelas escadas, com a promessa de que retornaria em breve...

Minutos depois, ali estava ele novamente...

Não falou em dinheiro, percebeu que ela sabia bem o que queria e que a ansiedade, expressa em suas respostas curtas e muito rápidas, era maior do que a de seus clientes habituais...

Numa voz mansa, mas incapaz de reduzir a agitação dela, ele indicou um dos cômodos da antiga casa, de onde transbordava um som dos Beastie Boys que, de cara, ela não reconheceu...

There's something coming to the surface…
There's fire all around, but this is an illusion
I've seen better days than this one
I've seen better nights than this one
Tension is rebuilding
Something's got to give

O volume crescente não ocultava os ruídos dos outros cômodos e clientes da casa...

Em todo canto, ouvia-se o estalar que trazia lembranças dolorosas a ela, mas que também não foram suficientes para impedir a sua vinda...

Sentou-se... Olhou em volta e viu o que procurava... Sabia que naquele recipiente estava o que procurava... Seu coração saltava... Teria o que veio buscar...

Poucos minutos... 

Pelas marcas nos braços e nas pernas dela, ele sabia que não seria sua primeira vez e que, se dependesse dele, ela voltaria...

Poucos minutos... 

A agulha finalmente entrava em sua pele, mas ela já não sentia dor... Apenas satisfação...

Era, agora, uma mulher com duas novas tatuagens.

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