quarta-feira, 23 de março de 2016

Igual

Poucas horas de sono foram suficientes. 

Levantei com a disposição daqueles quem têm o mundo e a vida inteira pela frente. 

Era exatamente assim que eu me sentia e, apesar do horário, parti para o banho já cantarolando em um volume difícil de ignorar...

No metrô, a caminho do trabalho, a iniciativa que me faltou no dia anterior parecia me inundar... No celular, digitei apenas: “Não consigo parar de sorrir”.

Podia parecer exagerado, mas era como eu me sentia e, sejamos francos, já era tarde demais para ponderar sobre qualquer coisa, pois a mensagem já tinha partido e não havia mais nada a fazer.

...

Sete anos, doze dias e algumas horas depois e eu ainda não consigo segurar o sorriso quando penso naquele 11 de março... O dia em que Camila me surpreendeu com o nosso primeiro beijo e com a pergunta: “Por que a gente tinha que beijar igual?”

Eu ainda não tenho respostas, babe. Mas tenho quantos beijos-teste você quiser, para que possamos tirar a prova ;)

terça-feira, 1 de março de 2016

E lá se vão 9 meses

E lá se vão 9 meses, Camila

É estranho pensar em como os 9 meses (contados em semanas, dias e horas) que ele passou indoor passaram em um ritmo tão diferente dos que ele acaba de completar aqui com a gente.

E tudo o que ele aprendeu nesse tempo? Daquele bebê que só sabia ser lindo, pro moleque que hoje toca a zoeira, se aventura em engatinhadas kamikaze, levanta com desenvoltura – caindo logo em seguida –, chora quando é contrariado e que ri com gosto quando nos vê.

E tudo o que a gente aprendeu nesse tempo, então? Do amor incondicional pro amor incondicional com cobertura extra! Do medo de segurar recém-nascidos para exímios artistas ambidestros dignos de um Cirque du Soleil.

#VicenteRules
Lá se vão 9 meses, Cá.

Sabe? No final das contas, acho que eu queria poder esticar um pouquinho esse tempo, ou pelo menos reprisar alguns capítulos desta primeira temporada -  só para garantir que eu não perdi qualquer detalhe.

Mas como não é assim que funciona, acho que só podemos respirar fundo e ver como é que vai ser daqui pra frente.

Ah! Só mais uma coisa: obrigado por ser tão foda, viu?

Te amo

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Ralado

15 de fevereiro de 2016 (primeiro dia do Vicente na escolinha)

Vai por mim: pior que o primeiro dia do filho na escola é o combo “primeiro-dia-do- filho-na-escola-com-direito-a-nariz-ralado” (nariz do filho, no caso).


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

… de manhã

Aperto os olhos, mesmo sem precisar…

Às 5h40, parece que nem o sol demonstrou disposição para dar as caras… O calor, no entanto, manteve-se ali, incansável…

O travesseiro molhado me obriga a levantar. Vicente, içado para a nossa cama no meio da noite, aparentemente padece do mesmo incomodo, mas resoluto — e cansado pelo esforço dedicado às muitas mamadas — não acorda, preferindo ocupar o espaço que acabo de deixar vago.

Caminho para a cozinha devagar, tomando o cuidado para não tropeçar em nenhum brinquedo ou esbarrar em alguma coisa…

Acordar Camila a esta hora, seria um erro castigado com rigor.

Meus instintos parecem estar no controle… Começo a fazer o café sem nem mesmo pensar em opções, ou considerar que uma bebida como essa não me ajudaria em nada com relação ao calor.

Ando até a sala sem erguer muito os pés e me jogo no sofá. Num bocejo mudo que enche a sala — enquanto esvazia meus pulmões –, me convenço de que realmente estou acordado, mesmo faltando horas para sair para o trabalho…

Decido que não vou fazer nenhum tipo de exercício, mesmo que eu tenha sido enfático ao dizer para Camila: “Claro que vou acordar cedo! Preciso fazer alguma coisa e amanhã me parece um bom dia para começar a pedalar…”

Formulo a teoria de que compromissos assim só deveriam ser assumidos pela manhã — quando você já está plenamente consciente sobre o seu humor e, na pior das hipóteses, pode jogar a culpa na preguiça…

Mais um bocejo, dessa vez acompanhado por uma senhora espreguiçada — daquelas que fazem jus ao nome que carregam.

Me arrasto até o banheiro, desviando de qualquer obstáculo e imaginando como consegui a proeza de não tropeçar em nada a caminho da cozinha.

Penso em um banho frio, mas me falta a coragem para me despedir do eu que ainda dormia (acho que uns 40%). Mesmo morna, a água é muito mais agradável que o calor modorrento da noite, o que me faz pensar pelo menos oito vezes antes de fechar o chuveiro.

Enrolado na toalha e com as mãos apoiadas na pia, bocejo mais uma vez e me dou conta de que nunca me deparei com uma quarta-feira com tanta vocação para segunda.

Olho pela janela e vejo que o danado do sol acordou bem disposto. Enquanto visto a bermuda (Sim. Pelo menos posso trabalhar de bermuda), imagino o tempo que ainda precisarei esperar até que alguém invente o teletransporte.

Como ocorre quase todos os dias, Camila se levanta para poder me dar um beijo de bom dia.

“- Tá tudo bem?” Pergunta ao me surpreender com olhar preso à caneca de café já vazia

- Sim… Só acordei de mau humor.

- Você deveria ter ido pedalar. Você sempre fica mais animado quando se exercita pela manhã.

- Quer saber? Acho que você tem razão… Será que você pode me lembrar disso amanhã de manhã bem cedinho?

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Domingo

Eu não estava em casa. Por alguma dessas coincidências trágicas – não trágica como uma guerra, but still –, eu não estava lá.

O dia parecia ter selecionado as horas mais enfadonhas em um único e desconfortável conjunto e etiquetado com o meu nome.

Recebi o pacote com a carranca apropriada e passei a contar as horas pelo número de reclamações e bufadas que eu já emitia sem perceber.

A chuva, que fez questão de alcançar em dois pontos diferentes da cidade – como se soubesse que meu guarda-chuva estava em segurança, em algum lugar bem distante do meu mau humor – nem me surpreendeu. “Perfect”, pensei.

Cheguei em casa torcendo para que ali as horas voassem e eu pudesse riscar aquele dia para sempre.

Ao abrir a porta vi Camila sorrindo.

– Advinha quem ficou em pé sozinho pela primeira vez?

Sempre achei que apenas pessoas de capa poderiam salvar o dia. Camila e Vicente provaram o contrário.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Air Fight

O atraso já não era incomum. O sono também não -  pergunte a qualquer pai de um pequeno de sete meses (na verdade, pergunte para qualquer mãe... é melhor). Do ponto de ônibus já dava para ouvir a feira livre que, como em toda a quarta-feira, enche a rua do trabalho com vozes, cores e um maravilhoso cheiro de pastel.

Resisto à tentação de pegar um de calabresa com queijo, lembrando do compromisso assumido com os quilos a menos.  

Ainda luto contra minha memória gustativa, que tenta me arrastar de volta à barraca, quando desvio o olhar e reparo num garoto com, talvez, não mais que 12 anos. Encarando o muro, de costas para a agitação da feira, ele desfere golpes certeiros, dizimando uma verdadeira horda de inimigos imaginários.

São chutes, socos, raios e, claro, a reação dolorosa aos contragolpes dos malfeitores.

Que luta!

Subitamente, os pensamentos dedicados ao pastel mudam de rumo. Agora, sigo meu caminho, tentando resgatar brincadeiras de minha infância.... Mas não as coletivas. Tento lembrar dos dias chuvosos em que a rua permanecia deserta, ou das longas viagens de ônibus em que a única coisa a fazer era imaginar e viver minhas próprias aventuras.

Corto caminho por algumas barracas sem nem mesmo perceber, tentando fazer a conexão entre aquela imagem e todos os solos de air guitar, air bass guitar e air drums protagonizados por mim.

Chego ao portão da agência. Alcanço a chave no bolso e enfrento a também não incomum inabilidade de encaixá-la de primeira na fechadura.

Percebo um vulto passando rapidamente e, quando me viro, reconheço o garoto, com o punho cerrado e a mesma cara determinada com que descia o cacete em todo e qualquer vilão imaginário.

Não sei se a maratona de Daredevil tem alguma relação com isso, mas numa fração de segundos vi um moleque com um potencial imenso, tanto para Wilson Fisk, quanto para Matt Murdock.

O sorriso meio enviesado, já indicava suas intenções: num movimento rápido o soco veio, parando a poucos centímetros do meu queixo, enquanto ele sonorizava com um ruidoso “Phseeew”, depois do qual saiu em disparada.

O dia continuou a partir dali. O garoto, seguiu em sua cruzada, os feirantes continuaram vendendo e os consumidores seguindo comprando. Eu, sem saber se vilão ou mocinho, fiquei imaginando que se estivesse com a minha air guitar ao alcance das mãos, a história poderia ter um final muito diferente, ou -  na pior das hipóteses - pelo menos teria um solo de Bill e Ted!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Dadedá

–  Oi, meu filho! Tudo bem?

–  Dadéda.

–  O pai tava morrendo de saudades de você...

–  Dáde

–  Sua mãe me disse que você não deu um minutinho de paz para ela hoje!

...

–  Para de morder o fio do mouse, meu filho! Estou falando com você...

–  Pu brrr...

–  É claro que é ruim. Se não fosse assim, não haveriam mais mouses com fio

–  Déda...

–  Agora me conta: o que aconteceu? Por que você não se comportou hoje?

–  DadéDAAAA!

–  Não, Vicente. Chega de mouse por hoje.

–  Dadé

–  Isso. O leãozinho pode.

...

–  Quando eu disse “pode”, não era bem “pode arremessar”...

–  Déda...


–  É... Não dá pra conversar sério com você, filho.