Levei pouco mais de 90 dias para
conseguir resgatar os acontecimentos daquela reta final da gestação. Tenho
certeza de que alguns detalhes me escaparam aqui e ali, mas tenho alguns
sorrisos guardados para quando eles cismarem de me acertar bem na cabeça.
Escrevi de acordo com o meu (nem
sempre) privilegiado ângulo de visão, primeiro porque Camila me pediu, mas
muito para que tanto ela quanto o Vicente (em alguns anos) possam entender como
foi o dia mais extraordinariamente visceral experimentado por um casal até
aquele momento.
Admirável Mundo Novo
Não saber o que está por vir é,
ao mesmo tempo, revigorante e assustador.
Durante toda a gravidez, Camila e
eu especulávamos sobre a chegada de Vicente.
Ficávamos imaginando se seria
durante a noite, se seria um trabalho de parto daqueles de 30 horas, se ele
chegaria na banheira, enfim...
Sem dúvida foi uma jornada
intensa.
Experimentamos a descoberta do
parto humanizado, com todo o envolvimento e a troca de informações com pessoas
maravilhosas, assim como os anseios, a angústia e a frustração de quem se
depara com condições adversas.
Foi o que aconteceu conosco lá
pela 36ª semana de gestação. De uma só vez, Camila teve diagnóstico
inconclusivo para diabetes gestacional, ou DG (inconclusivo porque os índices
da curva glicêmica flertavam com o sim, na avaliação de uma entidade, e com o
não, na avaliação de outra – ambas muito sérias, mas com este ponto de
discordância), uma leve ampliação do líquido amniótico (que também pode ser uma
manifestação de DG) e um aumento inesperado de uma proteína, detectado no exame
de urina (este poderia ser um indício de pré-eclâmpsia).
Sentimos medo, mas, naquele
momento fizemos o que podíamos fazer: começamos uma dieta bem hard, um
monitoramento glicêmico mais hard ainda e realizamos um exame de proteinúria –
com a coleta de urina num período de 24 horas – que, para nossa alegria, descartou
a pré-eclâmpsia.
Com estas medidas e as respostas
sempre muito positivas do corpo de Camila, parecia que a vida estava de volta
aos trilhos e que Vicente chegaria em casa, do jeitinho que imaginávamos.
Ao romper a barreira da 40ª
semana, contudo, o tempo começou a passar de forma diferente.
Com a inocência que sobra a todos
os pais de primeira viagem, esperávamos que tudo passasse a obedecer ao relógio
e que, ao alcançar a data prevista para o parto (DPP), que era dia 25 de maio, algo
aconteceria...
Pensávamos em contrações
dolorosas irrompendo durante a noite. Talvez tivesse que deixar uma reunião às
pressas, recebendo parabéns de meus colegas, enquanto tentava juntar minhas
coisas e acalmar a Camila do outro lado da linha...
Mas não! Nada disso aconteceu.
A calmaria era inquietante. Os
dias foram passando e, para nosso desespero, eles eram absolutamente iguais.
As madrugadas também foram
passando e, só não eram iguais, porque passávamos mais tempo conversando do que
dormindo.
Ficávamos imaginando se Camila
havia desenvolvido algum tipo de superpoder! Sei lá... Talvez ela estivesse em
pleno trabalho de parto, mas graças a sua super-resistência à dor, nós não
estivéssemos percebendo...
Nos distraíamos e ríamos pensando
nisso. Mas a verdade é que eu torcia muito para que fosse verdade – embora a
Ana Cristina Duarte, que acompanhou Camila durante o pré-natal, e Fernanda Tambelini,
nossa querida doula, tivessem sido claras e enfáticas, dizendo que quando as
contrações verdadeiras começassem, nós saberíamos bem.
Começamos a recorrer aos métodos
naturais de indução. Transávamos tanto quanto podíamos, fazíamos chás,
acupuntura (com o Thomaz, um cara extraordinário e que, sem dúvida, foi um
achado nessa reta final), óleo de rícino e até um primeiro descolamento de
membrana... Nada...
Com o passar dos dias, ficamos um
pouco mais e mais assustados, já que, apesar do diagnóstico inconclusivo, se Camila
tivesse DG, ultrapassar as 40 semanas traria riscos de morte para o nosso bebê.
Outro problema com o qual estávamos lidando era a ausência de um plano B.
Por sorte (e com uma ajuda foda da
Ana), conseguimos marcar uma consulta de última hora com a Dra. Taísa Catania.
Depois de quase duas horas de conversa e um exame minucioso, soubemos que apesar
da total ausência de dor, ela já estava com 5 cm de dilatação.
A teoria do superpoder voltava
com tudo... Era quase como se pudéssemos ver o bebê nascendo em algumas horas.
Naquele dia fizemos também uma
cardiotocografia e o perfil biofísico fetal. Vicente estava ótimo e o líquido,
que antes parecia aumentado, estava perfeitamente normal. Voltamos para casa cheios
de esperança, mas o TP não demonstrava nenhuma disposição para engrenar...
Na sexta-feira (29/5) pela manhã,
Camila teve mais uma sessão de acupuntura. Sabendo que a dilatação já era
bastante promissora, Thomaz realizou uma sessão direcionada à abertura do colo
e, ao final, perguntou:
- Você não está sentindo dor?
- A agulha da mão doeu um pouco, mas de resto
tudo bem - disse Camila.
- Mas você está tendo contrações
a cada 10 minutos. Acho que esta será a nossa última sessão, viu?
A alegria era tanta que, por um
momento, ela até esqueceu uma de suas principais aflições para aquele dia: há algumas semanas, um cartaz nos lembrava diariamente sobre uma interrupção no
fornecimento de energia, entre às 9h e às 14h daquela sexta-feira. Só de pensar
no chuveiro ou na banheira cheia com água fria, Camila franzia a testa e tremia
dos pés à cabeça.
Felizmente, a energia não faltou
naquele dia. Já o Vicente...
No sábado, a frustração
correspondia à tranquilidade. Nenhuma sensação diferente. Às vezes ficávamos em
silêncio, na tentativa de ouvir a contração dolorosa se aproximando, mas
nada...
Por orientação de Taísa, fizemos
mais um cardiotoco e mais um pbf. Novamente, nos tranquilizamos ao saber que o
Vicente estava muitíssimo bem.
No domingo, mais ou menos às 3h e
pouco, Camila acordou. Pensou estar sentindo algo que poderia muito bem ser uma
contração. Começou a contar os minutos. Estavam ritmadas, mas ainda não doíam.
Às 4h também acordei e, assim que a sonolência se dissipou, entendi o que
estava rolando.
Quando começamos a conversar, no
entanto, as contrações e tornaram um pouco mais espaçadas e Camila voltou a
dormir.
Fiquei ali por alguns instantes.
Olhava para a Camila e para aquela barriga linda. Percebi que o sono já ia longe
e, para não correr o risco de acordá-la, me levantei.
Por volta das 9h, Camila
despertou. Tomamos café e conversamos sobre os acontecimentos da madrugada.
Sabíamos que o bebê estava bem e acreditávamos que ele saberia a hora de vir.
No entanto, naquele momento, com uma “diabetes indefinida” já não sabíamos se
poderíamos aguardar.
Decidimos esperar algumas horas e
telefonar para Ana Cris.
- Meu coração diz que você pode
fazer um parto domiciliar, mas com a DG e com você entrando na 41ª semana,
minha cabeça diz que o melhor seria você induzir o parto. Conversei sobre o seu
caso com a Taísa e soube que seus exames foram ótimos, que você e o Vicente
estão incríveis e que, na avaliação dela, ele poderia chegar neste fim de
semana. Siga com os estímulos e, se ele não vier hoje, acho que o ideal é
começar a induzir.
Olhamos um para o outro e, sem falar, concordamos: temos um dia. Vamos
tentar tudo.
Já no início da tarde (entre
incontáveis doses de chás, comidas apimentadas e estímulos nos mamilos, que já
haviam se tornado bastante dolorosos), Letícia Ventura, parteira da equipe da
Ana, telefonou para Camila, perguntando se poderia passar para vê-la. Menos de
uma hora depois, o interfone tocou anunciando sua chegada.
Falamos sobre a última semana e
rimos um bocado lembrando de todos os recursos e mandingas aos quais recorremos
em tão curto espaço de tempo. Depois de auscultar a barriga e fazer um breve
toque, Letícia, ainda sorrindo, nos confidenciou:
- No dia em que nos conhecemos, a
Ana me falou sobre a sua DPP. Eu disse que você tinha uma cara de quem iria
parir em um domingo. Parece que eu acertei!
Ao ouvir essa frase, o sorriso de
Camila iluminou o quarto.
Ao se despedir, num tom que
variava entre uma brincadeira otimista e a ternura, Letícia disse apenas:
- Nos vemos mais tarde!
Ah! Que poder libertador tiveram
aquelas quatro palavras.
Era até difícil acreditar que,
depois de tantas reviravoltas, teríamos nosso filho em casa.
Choro e riso eram uma coisa só.
Por volta das 19h, Camila sentiu
a primeira dor.
Por conta do sorriso era difícil acreditar, mas Camila, finalmente, sentia a dor de uma contração.
Por conta do sorriso era difícil acreditar, mas Camila, finalmente, sentia a dor de uma contração.
Meu coração batia através da
camisa. O cansaço e a exasperação daquela semana eram coisa do passado.
Escrevemos para Fernanda e para Letícia contando as boas novas. Estávamos
monitorando as contrações e esperávamos poder chamá-las em breve.
As contrações vinham a cada 10
minutos e duravam aproximadamente 1 minuto e meio. Por tudo o que já havíamos
lido, aquele era um ótimo começo.
Fernanda foi a primeira a chegar.
Num abraço longo, daqueles que
dispensam qualquer complemento, Fernanda percebeu Camila extremamente aliviada.
Pelo volume de nossas frases e risadas, ela sacou também que estávamos
extremamente excitados com a chegada daquele momento e sugeriu que começássemos
a desacelerar um pouco.
Camila precisava se concentrar. A
ideia era que ela começasse a conduzir o processo, ajudando o corpo, mas também
auxiliando o bebê a se preparar.
Baixamos as luzes, acendemos
algumas velas e colocamos a bola de pilates, que já tinha virado uma grande
companheira de exercícios (até para mim), de volta ao centro da sala. A
playlist, tantas vezes executada, cantada, sentida e dançada, voltou a tocar
pela casa.
Entre uma contração e outra, eu fazia
o possível par ser útil: passando um café (quase que inteiramente em meu
benefício), tirando algo do caminho ou pensando em alguma coisa que pudesse
ajudar a diminuir o desconforto, durante as dores.
Foi assim, inclusive, que tivemos
a ideia de tirar o saco de boxe (Sim! Tínhamos um desses no meio da sala) e
improvisar uma corda em que Camila pudesse se pendurar, se fosse o caso.
Perto da meia-noite, Fernanda
sugeriu que colocássemos casacos (aquela foi, talvez, uma das madrugadas mais
frias do ano até então) e começássemos a caminhar um pouco pelo estacionamento
do prédio.
Começamos a andar em círculos
naquela área aberta, que deve ter uns 150 metros². Na metade da segunda ou da
terceira volta, Camila parou, levou as mãos à barriga e gemeu. Parecia que
todas as contrações, desde as 19h, tinham sido apenas um sinal do que estava
por vir.
- O Wag e eu vamos segurar você
pelos braços. Fique de cócoras e empurre o bumbum para trás como se fosse se sentar!
O gemido foi um pouco mais alto
dessa vez. Camila, que durante tantos dias se preocupou com a possibilidade de
incomodar os vizinhos ao gemer ou gritar demais, parecia ter superado esta
questão com bastante facilidade.
Ao final daquele minuto, Camila
parecia ter tido uma epifania:
- Vamos dar mais algumas voltas –
decidiu.
De quando em quando, o círculo
era interrompido por um longo gemido e uma abaixada, como da primeira vez. Na
quinta, ou talvez sexta vez em que repetimos aquela manobra, Fê pediu que eu
segurasse Camila pelos dois braços, se posicionou atrás dela e, com as palmas
das mãos, pressionou seu quadril como se quisesse estreitá-lo. Pela cara de
Camila, era o certo a fazer.
Voltamos para o apartamento.
Nosso reino de 33m² não permitia longas caminhadas, mas pelo menos estava bem
mais quentinho que o estacionamento.
A intensidade das dores havia
aumentando. As contrações ainda duravam cerca de 1 minuto e meio, mas os
intervalos agora eram de apenas 7 minutos.
A pedido de Camila, telefonei
para Letícia, mas, para não esquecer, menosprezar ou supervalorizar qualquer
detalhe pedi que a Fê conversasse com ela.
Escrevi também para a Flavia
Valsani, amiga que tem contado nossa história com fotos incríveis e que, apesar
de nunca ter acompanhado um parto assim de perto, fez questão de estar com a
gente para, no mínimo, nos encher de carinho.
As dores aumentavam. Fernanda
massageava as costas de Camila quase continuamente, enquanto eu, aproveitando
os intervalos, lhe cobria de beijos e dizia quantas bobagens fossem necessárias
para ajudá-la a relaxar.
Um banho quente caia bem, então
lá foi Camila para baixo do chuveiro.
Fiquei imaginando se, em algumas
horas, o bebê escolheria aquele banheiro pequenino para nascer. Talvez ele
preferisse a cama, ou mesmo a banheira que iriamos encher em breve.
- Que doideira. Nosso filho tá
vindo! – sussurrei em seu ouvido.
- Nossa! Eu estava pensando nisso
e, na minha cabeça, a frase era exatamente assim!
Sorrimos!
De volta à bola, Camila seguia
respirando profundamente. Fazia como Fernanda ensinara: puxava a corda
improvisada para baixo e, ao mesmo tempo, liberava o ar dos pulmões num suspiro
longo e ruidoso. Flavinha, que chegara rapidamente, intercalava cliques com os
cafunés na amiga.
Às 2h foi a vez de Letícia
chegar. Ao abrir a porta, me ofereci para pegar os apetrechos que ela trazia
com tamanha desenvoltura. Cheguei a me assustar com o peso daquelas bolsas.
- Ele não vai mais nascer no
domingo, mas eu não falei que nos veríamos mais tarde?
Letícia, então, auscultou a
barriga e fez um breve toque para saber como estava evoluindo. Vicente estava
naquela posição há meses e, como Camila já estava com mais de 5 cm de
dilatação, pensamos “Ok! Agora já deve estar perto”.
As dores vinham cada vez mais
fortes.
Decidi tentar a manobra de
pressionar o quadril, como vi a Fernanda fazendo tantas vezes ao longo daquela
noite. Para desespero da Camila, as primeiras tentativas não foram assim...
vamos dizer... dignas de nota! Ainda bem que Letícia e Fernanda estavam lá.
A cada nova contração, Camila
parecia sentir um pouco mais de dor. Numa delas, quando a intensidade começou a
diminuir, ela, com os olhos ainda um pouco virados e o rosto bastante quente,
me perguntou:
A abracei e rimos juntos por
alguns instantes.
Com ela recuperada, comecei a
preparar a sala para a banheira.
Quando Isabele Ruivo - parteira que
auxiliaria Letícia – chegou, eu já havia perdido totalmente a noção do tempo.
Vivíamos em um mundo paralelo, onde contrações eram eternas e os intervalos
surpreendentemente breves.
Observei as massagens feitas por
Fernanda e Letícia e tentava imitá-las da melhor forma possível. Eu queria
estar perto, queria ampará-la e, ao mesmo tempo, encorajá-la. Só aceitei ficar
longe quando ela finalmente pediu para entrar na banheira.
Naquele momento, devolvi o posto para Fê e parti para o banheiro para pegar a mangueira e um grande balde.
Naquele momento, devolvi o posto para Fê e parti para o banheiro para pegar a mangueira e um grande balde.
Como a madrugada estava bastante fria, esperamos até o último momento para encher a banheira. Com ajuda de Letícia e Isabele, colocamos também algumas panelas com água no fogão, para que pudéssemos manter a água sempre quentinha.
“Acho que o Vicente vai chegar
antes de eu encher a banheira”, pensava enquanto percorria o caminho entre o
banheiro e a sala. Talvez fosse o cansaço, mas naquele momento aquilo me
parecia muito provável, já que, quando chegamos às contrações verdadeiras Camila já estava com senhores 5 cm de dilatação – ou seja, a meio caminho do objetivo.
Ao entrar na banheira, sentindo o
calor envolvendo o seu corpo, centímetro por centímetro, de acordo com a
elevação do nível d’água, Camila parecia ter encontrado conforto pela primeira
vez.
As contrações eram doloridas e
duradouras, mas era como se Camila soubesse lidar melhor com elas na água.
Ainda dentro da banheira comeu um caqui e um pequeno pedaço de chocolate.
Fernanda e eu revezávamos na tarefa de lhe jogar água sobre a barriga, como
quem rega uma flor.
Graças às panelas com água, a
banheira permaneceu bem quentinha, mas como as regras da gestação ainda se
aplicavam à Camila, meia hora foi o máximo que ela pôde permanecer ali antes de
ter vontade de ir ao banheiro.
Logo que deixou a banheira, todos
pareciam querer abraçá-la e envolve-la em uma toalha. Ela sorria sem jeito,
afinal nunca se sentiu confortável ao ser o centro das atenções.
Ainda no banheiro, Camila gemeu
alto. Olhei pela porta semiaberta e a vi, ainda sentada sobre o vaso, apoiando
uma das mãos no box e a outra na pia. Entrei e a abracei. Ao final daquela
contração, a ajudei a se vestir e a levei para o quarto.
De volta à bola de pilates,
Camila olhou para todos aqueles pares de olhos e, pela enésima vez, pediu que
as meninas ficassem à vontade para comer e beber. O pedido, sempre acompanhado
por uma lista completa do que havia na despensa e na geladeira, era sempre
respondido com sorrisos e com um coro que dizia:
- Cá, não se preocupe com a
gente! Estamos todas bem!
Eu olhava para aquela cena com
ternura, mas sem deixar de admirar a comicidade. A abracei de novo e disse que
estava tudo bem. Expliquei que as meninas estavam bem e que eu me encarregaria de tudo
o que elas precisassem.
Não adiantou muito, é bem
verdade. De tempos em tempos, Camila continuava sendo a melhor anfitriã que
alguém em trabalho de parto poderia ser (mesmo com a demora na chegada do
convidado de honra).
O tempo? Bem, o tempo seguia em um
ritmo próprio.
Eu, que não havia me dado conta
que a madrugada acabara, percebi o dia claro quase sem querer. Camila, que
piscava os olhos lentamente, como se estivesse em transe, também não parecia
ter notado a claridade. Continuava dropando as contrações uma após a outra.
Tentou encontrar conforto na
cama, assim como no chuveiro e na bola. Decidiu, então, voltar para a banheira.
Enquanto aquecíamos a água, Letícia pediu para fazer novo toque e auscultar o
bebê.
Ver aquele coraçãozinho batendo forte, tranquilizava e, quase simultaneamente, recarregava nossas baterias.
Ver aquele coraçãozinho batendo forte, tranquilizava e, quase simultaneamente, recarregava nossas baterias.
Ao entrar na banheira Camila
sorria novamente. Fazíamos piadas, imaginando que se mantivéssemos a
banheira no meio da sala permanentemente, poderíamos chamá-la de Ibiza.
Algum tempo e algumas risadas depois, Letícia me
chamou discretamente e disse:
- Será que a Ca toparia levantar
um pouco?
Ao vê-la confortável pela
primeira vez em horas, quis entender o pedido. Cuidadosamente, Letícia disse:
- O trabalho de parto está
evoluindo muito devagarinho. Ela ainda está com pouco mais de 6 cm de
dilatação. O ideal, então, é que ela caminhe ou mesmo dance um pouco. Isso vai
ajudar o bebê a descer e o trabalho a evoluir.
Ok. Naquele momento, qualquer
sonolência se dissipou completamente. Não conseguia acreditar que depois de
tantas horas, a dilatação tinha evoluído pouco mais de 1,5 cm.
Sentei ao lado da banheira e,
depois de mais uma contração, disse apenas:
- Amor, a Letícia disse que é
melhor você ficar em pé para ajudar o bebê a descer. Sei que está frio lá fora
e que aqui não temos muito espaço, mas vamos tentar caminhar um pouco?
A vontade de fazer algo para
facilitar o nascimento de Vicente era tanta, que Camila nem titubeou. Deixou o
único lugar em que se sentia confortável, secou-se e começou a caminhar comigo
pelo apartamento. Tínhamos um espaço de mais ou menos 10 passos, por isso,
andávamos de lá para cá e de cá para lá, parando apenas durante as contrações.
Por orientação de Letícia, depois
de um tempo de caminhada, começamos a dançar realizando movimentos circulares.
Não posso dizer que aqueles foram os nossos melhores passos, mas com certeza
era a dança mais importante que já havíamos protagonizado até então...
Abraçados, sussurrávamos as
músicas da playlist. Falávamos sobre ter nosso filho nos braços e sobre a
montanha-russa dos últimos dias.
Permanecemos ali por um longo
tempo, alternando as microcaminhadas e as danças até que decidimos nos deitar
um pouco.
Apesar de não encontrar qualquer
posição que tornasse a contração menos dolorosa, ela precisava tentar recuperar
energias para quando viesse o momento do puxo.
No toque seguinte, descobrimos que a dilatação já havia evoluído bastante.
Finalmente estávamos perto, mas então soubemos que havia uma última barreira,
um último nível do colo pelo qual o bebê não estava conseguindo passar.
Letícia explicou que poderia
realizar uma manobra para auxiliar a passagem do bebê. Durante a contração,
Camila precisaria realizar o puxo, enquanto Letícia, com os dedos tentaria
escorregar este último nível do colo pela cabeça do bebê, como se o auxiliasse
a vestir uma camiseta.
Veio a primeira, a segunda, a
terceira contração. As meninas sugeriram, então, que Camila mudasse para o
banco. Talvez a gravidade ajudasse. Me posicionei logo atrás dela, apoiando
suas costas e entregando mãos e braços para que ela apertasse o quanto fosse
necessário. Mais uma contração. Outra. Outra. Outra. Mais uma. Mais outra.
Apesar dos esforços de Letícia, Isabela e, claro, de Camila, Vicente não
conseguia ultrapassar aquela última barreira.
As parteiras pediram a Camila que
descansasse um pouco nas contrações seguintes e se afastaram um pouco. Mesmo
falando numa voz muito baixa, percebi que elas estavam inquietas. Isabela pegou
o celular e se dirigiu para a cozinha, enquanto Letícia, com o cardiotoco em mãos,
veio em nossa direção. Vimos o coração do bebê batendo a 145 bpm e respiramos
aliviados até que Letícia disse: “Cá, o bebê está bem, mas suas contrações
estão começando a ficar um pouco mais espaçadas. Precisamos pensar na possibilidade
de uma transferência para o Hospital”.
Camila chorou... Apertou o meu
braço e chorou.... Disse que, depois de tudo, não era justo que Vicente
nascesse fora de casa.
Ainda chorava quando veio a nova
contração e, ao senti-la suplicou: “Podemos tentar mais um pouco?”.
Naquele momento, depois de
tantas horas, da dor das contrações e do toque, Camila queria apenas mais uma
chance de ter o parto com que ela sonhou.
Empurrávamos juntos enquanto Isabela
e Letícia, alternadamente, repetiam a manobra. Repetimos até que, exausta, Camila concordou
em partir para o Hospital.
Alcancei a mochila que havíamos
montado com a certeza de não usar. Em outra, coloquei uma troca de roupas e o
pijama de botão que Camila comprou como um “item indispensável para a
amamentação”.
Encontramos os pais de Camila já
no hall do prédio e, sem mais explicações (não havíamos contado para ninguém
sobre o trabalho de parto), dissemos que estávamos indo para o Hospital.
A voz doce e atenciosa de
Letícia, que tentava nos tranquilizar ao longo de todo o trajeto, contrastava
com o estilo de direção “arrojado” adotado para atravessar a cidade já perto do
rush do fim de tarde.
O waze nos guiava pelo caminho
mais longo, porém menos congestionado. Antes que pudéssemos perceber,
desembarcamos no pronto atendimento do Hospital.
A bordo de uma cadeira de rodas,
Camila sorriu ao ver Taísa e Ana Paula Portela que, rapidamente, a levaram para
os exames de admissão.
Com a chegada dos enfermeiros que
a levariam para o centro cirúrgico, recebi um avental do Hospital e a tarefa de
ajudar Camila a trocar de roupa. Entramos no banheiro, mas antes mesmo de realizar a troca, a mãe de todas as contrações apareceu. Camila gritou como não
tinha feito até então e, enquanto eu a amparava, fomos alcançados pelos
enfermeiros que, como num passe de mágica, não apenas terminaram de lhe colocar
o avental como a botaram sobre uma maca.
No elevador nos separamos pela
primeira vez desde que a aventura começou. Ao reencontrá-la no centro
cirúrgico, decidi que não sairia do lado de Camila nem por um instante sequer.
Simpático, o anestesista Ticiano,
nos explicou calmamente o processo de analgesia e, ao de iniciá-lo, nos deu 30
minutos para que pudéssemos nos preparar para o parto. Abraçados, parecíamos
não acreditar em tudo o que havíamos vivido nos últimos dois dias, nem tão
pouco nas mudanças que estávamos prestes a experimentar.
Logo, a equipe começou a retornar
e sabíamos que o Vicente não demoraria a chegar. Taísa, nos explicou que como o
TP estava bastante avançado, a quantidade de ocitocina sintética seria muito
pequena, pois o parto precisava apenas de um “empurrãozinho”. Com a analgesia e
o relaxamento, todas as barreiras haviam caído e o nosso pequeno já mostrava
que estava pronto para vir.
Muito à vontade, Camila poderia
parir como quisesse. Poderia ficar sentada, de quatro, de lado, mas
curiosamente preferiu ficar deitada. A equipe, em volta de suas ancas, sem
tocá-la de forma bruta, sem ordenar que fizesse isso ou aquilo, deixava claro
que o parto seria dela e de mais ninguém.
Camila empurrou, como já havia
feito tantas vezes em casa. Só que, diferente do que ocorrera até então, dessa
vez o bebê veio. Pelo espelho ela pôde ver a cabeleira farta do pequeno e se
emocionou. Na contração seguinte ele coroou.
Camila, que a esta altura apoiava
as pernas nos ombros de Taísa e Ana Paula, custava a acreditar no que estava
vendo pelo espelho e arrancou risadas de todos ao dizer:
- Gente. Realmente tem uma pessoa
dentro de mim.
Beijei-lhe a testa e disse “Ele
tá quase aqui.”
... às 19h34 seus ombrinhos
passaram. Rosado e comprido, Vicente tossiu algumas vezes e bem rapidamente se
pôs a chorar.
No colo de Camila, esticando as
pernas pela primeira vez em muito tempo, ele chorava forte. O corpanzil
rapidamente tomou para si o sangue que mantinha na placenta e o cordão
rapidamente murchou.
Silvia, a pediatra que acompanhou
todo o procedimento e que então nos tranquilizava, dizendo que ele era um
garoto lindo e forte e, depois de algum tempo, me chamou para cortar o cordão
umbilical, me estendendo uma pequena lâmina.
A equipe, assim como Letícia
e Fernanda, que sempre estiveram ao nosso lado, permaneceram ali sentados pelo centro cirúrgico. Falavam sobre a
beleza do parto, sobre a força de Camila e sobre o tamanho de Vicente.
Eu olhava para Camila com uma
admiração devotada. A força, a coragem, o instinto e o lado bicho somaram-se às
outras tantas características que sempre me encantaram nela. Camila tornou-se,
mais uma vez, um admirável mundo novo pra mim e foi absolutamente apaixonado
por minha mulher que, pela primeira vez, peguei meu filho nos braços (depois dela, é claro).

