segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Admirável Mundo Novo

Levei pouco mais de 90 dias para conseguir resgatar os acontecimentos daquela reta final da gestação. Tenho certeza de que alguns detalhes me escaparam aqui e ali, mas tenho alguns sorrisos guardados para quando eles cismarem de me acertar bem na cabeça.

Escrevi de acordo com o meu (nem sempre) privilegiado ângulo de visão, primeiro porque Camila me pediu, mas muito para que tanto ela quanto o Vicente (em alguns anos) possam entender como foi o dia mais extraordinariamente visceral experimentado por um casal até aquele momento.

Admirável Mundo Novo

Não saber o que está por vir é, ao mesmo tempo, revigorante e assustador.
Durante toda a gravidez, Camila e eu especulávamos sobre a chegada de Vicente.
Ficávamos imaginando se seria durante a noite, se seria um trabalho de parto daqueles de 30 horas, se ele chegaria na banheira, enfim...

Sem dúvida foi uma jornada intensa.

Experimentamos a descoberta do parto humanizado, com todo o envolvimento e a troca de informações com pessoas maravilhosas, assim como os anseios, a angústia e a frustração de quem se depara com condições adversas.

Foi o que aconteceu conosco lá pela 36ª semana de gestação. De uma só vez, Camila teve diagnóstico inconclusivo para diabetes gestacional, ou DG (inconclusivo porque os índices da curva glicêmica flertavam com o sim, na avaliação de uma entidade, e com o não, na avaliação de outra – ambas muito sérias, mas com este ponto de discordância), uma leve ampliação do líquido amniótico (que também pode ser uma manifestação de DG) e um aumento inesperado de uma proteína, detectado no exame de urina (este poderia ser um indício de pré-eclâmpsia).

Sentimos medo, mas, naquele momento fizemos o que podíamos fazer: começamos uma dieta bem hard, um monitoramento glicêmico mais hard ainda e realizamos um exame de proteinúria – com a coleta de urina num período de 24 horas – que, para nossa alegria, descartou a pré-eclâmpsia.

Com estas medidas e as respostas sempre muito positivas do corpo de Camila, parecia que a vida estava de volta aos trilhos e que Vicente chegaria em casa, do jeitinho que imaginávamos.

Ao romper a barreira da 40ª semana, contudo, o tempo começou a passar de forma diferente.

Com a inocência que sobra a todos os pais de primeira viagem, esperávamos que tudo passasse a obedecer ao relógio e que, ao alcançar a data prevista para o parto (DPP), que era dia 25 de maio, algo aconteceria...

Pensávamos em contrações dolorosas irrompendo durante a noite. Talvez tivesse que deixar uma reunião às pressas, recebendo parabéns de meus colegas, enquanto tentava juntar minhas coisas e acalmar a Camila do outro lado da linha...

Mas não! Nada disso aconteceu.

A calmaria era inquietante. Os dias foram passando e, para nosso desespero, eles eram absolutamente iguais.

As madrugadas também foram passando e, só não eram iguais, porque passávamos mais tempo conversando do que dormindo.

Ficávamos imaginando se Camila havia desenvolvido algum tipo de superpoder! Sei lá... Talvez ela estivesse em pleno trabalho de parto, mas graças a sua super-resistência à dor, nós não estivéssemos percebendo...

Nos distraíamos e ríamos pensando nisso. Mas a verdade é que eu torcia muito para que fosse verdade – embora a Ana Cristina Duarte, que acompanhou Camila durante o pré-natal, e Fernanda Tambelini, nossa querida doula, tivessem sido claras e enfáticas, dizendo que quando as contrações verdadeiras começassem, nós saberíamos bem.

Começamos a recorrer aos métodos naturais de indução. Transávamos tanto quanto podíamos, fazíamos chás, acupuntura (com o Thomaz, um cara extraordinário e que, sem dúvida, foi um achado nessa reta final), óleo de rícino e até um primeiro descolamento de membrana... Nada...

Com o passar dos dias, ficamos um pouco mais e mais assustados, já que, apesar do diagnóstico inconclusivo, se Camila tivesse DG, ultrapassar as 40 semanas traria riscos de morte para o nosso bebê. Outro problema com o qual estávamos lidando era a ausência de um plano B.

Por sorte (e com uma ajuda foda da Ana), conseguimos marcar uma consulta de última hora com a Dra. Taísa Catania. Depois de quase duas horas de conversa e um exame minucioso, soubemos que apesar da total ausência de dor, ela já estava com 5 cm de dilatação.  

A teoria do superpoder voltava com tudo... Era quase como se pudéssemos ver o bebê nascendo em algumas horas.

Naquele dia fizemos também uma cardiotocografia e o perfil biofísico fetal. Vicente estava ótimo e o líquido, que antes parecia aumentado, estava perfeitamente normal. Voltamos para casa cheios de esperança, mas o TP não demonstrava nenhuma disposição para engrenar...

Na sexta-feira (29/5) pela manhã, Camila teve mais uma sessão de acupuntura. Sabendo que a dilatação já era bastante promissora, Thomaz realizou uma sessão direcionada à abertura do colo e, ao final, perguntou:

 - Você não está sentindo dor?

 - A agulha da mão doeu um pouco, mas de resto tudo bem - disse Camila.

- Mas você está tendo contrações a cada 10 minutos. Acho que esta será a nossa última sessão, viu?

A alegria era tanta que, por um momento, ela até esqueceu uma de suas principais aflições para aquele dia: há algumas semanas, um cartaz nos lembrava diariamente sobre uma interrupção no fornecimento de energia, entre às 9h e às 14h daquela sexta-feira. Só de pensar no chuveiro ou na banheira cheia com água fria, Camila franzia a testa e tremia dos pés à cabeça.

Felizmente, a energia não faltou naquele dia. Já o Vicente...

No sábado, a frustração correspondia à tranquilidade. Nenhuma sensação diferente. Às vezes ficávamos em silêncio, na tentativa de ouvir a contração dolorosa se aproximando, mas nada...

Por orientação de Taísa, fizemos mais um cardiotoco e mais um pbf. Novamente, nos tranquilizamos ao saber que o Vicente estava muitíssimo bem.

No domingo, mais ou menos às 3h e pouco, Camila acordou. Pensou estar sentindo algo que poderia muito bem ser uma contração. Começou a contar os minutos. Estavam ritmadas, mas ainda não doíam. Às 4h também acordei e, assim que a sonolência se dissipou, entendi o que estava rolando.

Quando começamos a conversar, no entanto, as contrações e tornaram um pouco mais espaçadas e Camila voltou a dormir.

Fiquei ali por alguns instantes. Olhava para a Camila e para aquela barriga linda. Percebi que o sono já ia longe e, para não correr o risco de acordá-la, me levantei.

Por volta das 9h, Camila despertou. Tomamos café e conversamos sobre os acontecimentos da madrugada. Sabíamos que o bebê estava bem e acreditávamos que ele saberia a hora de vir. No entanto, naquele momento, com uma “diabetes indefinida” já não sabíamos se poderíamos aguardar.

Decidimos esperar algumas horas e telefonar para Ana Cris.

- Meu coração diz que você pode fazer um parto domiciliar, mas com a DG e com você entrando na 41ª semana, minha cabeça diz que o melhor seria você induzir o parto. Conversei sobre o seu caso com a Taísa e soube que seus exames foram ótimos, que você e o Vicente estão incríveis e que, na avaliação dela, ele poderia chegar neste fim de semana. Siga com os estímulos e, se ele não vier hoje, acho que o ideal é começar a induzir.

Olhamos um para o outro e, sem falar, concordamos: temos um dia. Vamos tentar tudo. 

Já no início da tarde (entre incontáveis doses de chás, comidas apimentadas e estímulos nos mamilos, que já haviam se tornado bastante dolorosos), Letícia Ventura, parteira da equipe da Ana, telefonou para Camila, perguntando se poderia passar para vê-la. Menos de uma hora depois, o interfone tocou anunciando sua chegada.

Falamos sobre a última semana e rimos um bocado lembrando de todos os recursos e mandingas aos quais recorremos em tão curto espaço de tempo. Depois de auscultar a barriga e fazer um breve toque, Letícia, ainda sorrindo, nos confidenciou:

- No dia em que nos conhecemos, a Ana me falou sobre a sua DPP. Eu disse que você tinha uma cara de quem iria parir em um domingo. Parece que eu acertei!

Ao ouvir essa frase, o sorriso de Camila iluminou o quarto.

Ao se despedir, num tom que variava entre uma brincadeira otimista e a ternura, Letícia disse apenas:

- Nos vemos mais tarde!

Ah! Que poder libertador tiveram aquelas quatro palavras.

Era até difícil acreditar que, depois de tantas reviravoltas, teríamos nosso filho em casa.

Choro e riso eram uma coisa só.

Por volta das 19h, Camila sentiu a primeira dor.

Por conta do sorriso era difícil acreditar, mas Camila, finalmente, sentia a dor de uma contração.

Meu coração batia através da camisa. O cansaço e a exasperação daquela semana eram coisa do passado. Escrevemos para Fernanda e para Letícia contando as boas novas. Estávamos monitorando as contrações e esperávamos poder chamá-las em breve.

As contrações vinham a cada 10 minutos e duravam aproximadamente 1 minuto e meio. Por tudo o que já havíamos lido, aquele era um ótimo começo.

Fernanda foi a primeira a chegar.

Num abraço longo, daqueles que dispensam qualquer complemento, Fernanda percebeu Camila extremamente aliviada. Pelo volume de nossas frases e risadas, ela sacou também que estávamos extremamente excitados com a chegada daquele momento e sugeriu que começássemos a desacelerar um pouco.

Camila precisava se concentrar. A ideia era que ela começasse a conduzir o processo, ajudando o corpo, mas também auxiliando o bebê a se preparar.

Baixamos as luzes, acendemos algumas velas e colocamos a bola de pilates, que já tinha virado uma grande companheira de exercícios (até para mim), de volta ao centro da sala. A playlist, tantas vezes executada, cantada, sentida e dançada, voltou a tocar pela casa.

Entre uma contração e outra, eu fazia o possível par ser útil: passando um café (quase que inteiramente em meu benefício), tirando algo do caminho ou pensando em alguma coisa que pudesse ajudar a diminuir o desconforto, durante as dores.

Foi assim, inclusive, que tivemos a ideia de tirar o saco de boxe (Sim! Tínhamos um desses no meio da sala) e improvisar uma corda em que Camila pudesse se pendurar, se fosse o caso.

Perto da meia-noite, Fernanda sugeriu que colocássemos casacos (aquela foi, talvez, uma das madrugadas mais frias do ano até então) e começássemos a caminhar um pouco pelo estacionamento do prédio.

Começamos a andar em círculos naquela área aberta, que deve ter uns 150 metros². Na metade da segunda ou da terceira volta, Camila parou, levou as mãos à barriga e gemeu. Parecia que todas as contrações, desde as 19h, tinham sido apenas um sinal do que estava por vir.

- O Wag e eu vamos segurar você pelos braços. Fique de cócoras e empurre o bumbum para trás como se fosse se sentar! 

O gemido foi um pouco mais alto dessa vez. Camila, que durante tantos dias se preocupou com a possibilidade de incomodar os vizinhos ao gemer ou gritar demais, parecia ter superado esta questão com bastante facilidade.

Ao final daquele minuto, Camila parecia ter tido uma epifania:

- Vamos dar mais algumas voltas – decidiu.

De quando em quando, o círculo era interrompido por um longo gemido e uma abaixada, como da primeira vez. Na quinta, ou talvez sexta vez em que repetimos aquela manobra, Fê pediu que eu segurasse Camila pelos dois braços, se posicionou atrás dela e, com as palmas das mãos, pressionou seu quadril como se quisesse estreitá-lo. Pela cara de Camila, era o certo a fazer.

Voltamos para o apartamento. Nosso reino de 33m² não permitia longas caminhadas, mas pelo menos estava bem mais quentinho que o estacionamento.

A intensidade das dores havia aumentando. As contrações ainda duravam cerca de 1 minuto e meio, mas os intervalos agora eram de apenas 7 minutos.

A pedido de Camila, telefonei para Letícia, mas, para não esquecer, menosprezar ou supervalorizar qualquer detalhe pedi que a Fê conversasse com ela.

Escrevi também para a Flavia Valsani, amiga que tem contado nossa história com fotos incríveis e que, apesar de nunca ter acompanhado um parto assim de perto, fez questão de estar com a gente para, no mínimo, nos encher de carinho.

As dores aumentavam. Fernanda massageava as costas de Camila quase continuamente, enquanto eu, aproveitando os intervalos, lhe cobria de beijos e dizia quantas bobagens fossem necessárias para ajudá-la a relaxar.

Um banho quente caia bem, então lá foi Camila para baixo do chuveiro.

Fiquei imaginando se, em algumas horas, o bebê escolheria aquele banheiro pequenino para nascer. Talvez ele preferisse a cama, ou mesmo a banheira que iriamos encher em breve.

- Que doideira. Nosso filho tá vindo! – sussurrei em seu ouvido.

- Nossa! Eu estava pensando nisso e, na minha cabeça, a frase era exatamente assim!
Sorrimos! 

De volta à bola, Camila seguia respirando profundamente. Fazia como Fernanda ensinara: puxava a corda improvisada para baixo e, ao mesmo tempo, liberava o ar dos pulmões num suspiro longo e ruidoso. Flavinha, que chegara rapidamente, intercalava cliques com os cafunés na amiga.

Às 2h foi a vez de Letícia chegar. Ao abrir a porta, me ofereci para pegar os apetrechos que ela trazia com tamanha desenvoltura. Cheguei a me assustar com o peso daquelas bolsas.

- Ele não vai mais nascer no domingo, mas eu não falei que nos veríamos mais tarde?

Letícia, então, auscultou a barriga e fez um breve toque para saber como estava evoluindo. Vicente estava naquela posição há meses e, como Camila já estava com mais de 5 cm de dilatação, pensamos “Ok! Agora já deve estar perto”.

As dores vinham cada vez mais fortes.

Decidi tentar a manobra de pressionar o quadril, como vi a Fernanda fazendo tantas vezes ao longo daquela noite. Para desespero da Camila, as primeiras tentativas não foram assim... vamos dizer... dignas de nota! Ainda bem que Letícia e Fernanda estavam lá.

A cada nova contração, Camila parecia sentir um pouco mais de dor. Numa delas, quando a intensidade começou a diminuir, ela, com os olhos ainda um pouco virados e o rosto bastante quente, me perguntou:

- Cadê os meus superpoderes, amor?

Cadê os meus superpoderes, amor?         (Foto: Flávia Valsani)

A abracei e rimos juntos por alguns instantes.

Com ela recuperada, comecei a preparar a sala para a banheira.

Quando Isabele Ruivo - parteira que auxiliaria Letícia – chegou, eu já havia perdido totalmente a noção do tempo. Vivíamos em um mundo paralelo, onde contrações eram eternas e os intervalos surpreendentemente breves.

Observei as massagens feitas por Fernanda e Letícia e tentava imitá-las da melhor forma possível. Eu queria estar perto, queria ampará-la e, ao mesmo tempo, encorajá-la. Só aceitei ficar longe quando ela finalmente pediu para entrar na banheira.

Naquele momento, devolvi o posto para Fê e parti para o banheiro para pegar a mangueira e um grande balde.

Como a madrugada estava bastante fria, esperamos até o último momento para encher a banheira. Com ajuda de Letícia e Isabele, colocamos também algumas panelas com água no fogão, para que pudéssemos manter a água sempre quentinha. 

“Acho que o Vicente vai chegar antes de eu encher a banheira”, pensava enquanto percorria o caminho entre o banheiro e a sala. Talvez fosse o cansaço, mas naquele momento aquilo me parecia muito provável, já que, quando chegamos às contrações verdadeiras Camila já estava com senhores 5 cm de dilatação – ou seja, a meio caminho do objetivo.

Ao entrar na banheira, sentindo o calor envolvendo o seu corpo, centímetro por centímetro, de acordo com a elevação do nível d’água, Camila parecia ter encontrado conforto pela primeira vez.

Ibiza         (Foto: Flávia Valsani)

As contrações eram doloridas e duradouras, mas era como se Camila soubesse lidar melhor com elas na água. Ainda dentro da banheira comeu um caqui e um pequeno pedaço de chocolate. Fernanda e eu revezávamos na tarefa de lhe jogar água sobre a barriga, como quem rega uma flor.

Graças às panelas com água, a banheira permaneceu bem quentinha, mas como as regras da gestação ainda se aplicavam à Camila, meia hora foi o máximo que ela pôde permanecer ali antes de ter vontade de ir ao banheiro.

Logo que deixou a banheira, todos pareciam querer abraçá-la e envolve-la em uma toalha. Ela sorria sem jeito, afinal nunca se sentiu confortável ao ser o centro das atenções.

Ainda no banheiro, Camila gemeu alto. Olhei pela porta semiaberta e a vi, ainda sentada sobre o vaso, apoiando uma das mãos no box e a outra na pia. Entrei e a abracei. Ao final daquela contração, a ajudei a se vestir e a levei para o quarto.

De volta à bola de pilates, Camila olhou para todos aqueles pares de olhos e, pela enésima vez, pediu que as meninas ficassem à vontade para comer e beber. O pedido, sempre acompanhado por uma lista completa do que havia na despensa e na geladeira, era sempre respondido com sorrisos e com um coro que dizia:

- Cá, não se preocupe com a gente! Estamos todas bem!

Eu olhava para aquela cena com ternura, mas sem deixar de admirar a comicidade. A abracei de novo e disse que estava tudo bem. Expliquei que as meninas estavam bem e que eu me encarregaria de tudo o que elas precisassem.

Não adiantou muito, é bem verdade. De tempos em tempos, Camila continuava sendo a melhor anfitriã que alguém em trabalho de parto poderia ser (mesmo com a demora na chegada do convidado de honra).

O tempo? Bem, o tempo seguia em um ritmo próprio.

Eu, que não havia me dado conta que a madrugada acabara, percebi o dia claro quase sem querer. Camila, que piscava os olhos lentamente, como se estivesse em transe, também não parecia ter notado a claridade. Continuava dropando as contrações uma após a outra.

Tentou encontrar conforto na cama, assim como no chuveiro e na bola. Decidiu, então, voltar para a banheira. Enquanto aquecíamos a água, Letícia pediu para fazer novo toque e auscultar o bebê.

Ver aquele coraçãozinho batendo forte, tranquilizava e, quase simultaneamente, recarregava nossas baterias.

Ao entrar na banheira Camila sorria novamente. Fazíamos piadas, imaginando que se mantivéssemos a banheira no meio da sala permanentemente, poderíamos chamá-la de Ibiza.

Algum tempo e algumas risadas depois, Letícia me chamou discretamente e disse:

- Será que a Ca toparia levantar um pouco?

Ao vê-la confortável pela primeira vez em horas, quis entender o pedido. Cuidadosamente, Letícia disse:

- O trabalho de parto está evoluindo muito devagarinho. Ela ainda está com pouco mais de 6 cm de dilatação. O ideal, então, é que ela caminhe ou mesmo dance um pouco. Isso vai ajudar o bebê a descer e o trabalho a evoluir.

Ok. Naquele momento, qualquer sonolência se dissipou completamente. Não conseguia acreditar que depois de tantas horas, a dilatação tinha evoluído pouco mais de 1,5 cm.

Sentei ao lado da banheira e, depois de mais uma contração, disse apenas:

- Amor, a Letícia disse que é melhor você ficar em pé para ajudar o bebê a descer. Sei que está frio lá fora e que aqui não temos muito espaço, mas vamos tentar caminhar um pouco?

A vontade de fazer algo para facilitar o nascimento de Vicente era tanta, que Camila nem titubeou. Deixou o único lugar em que se sentia confortável, secou-se e começou a caminhar comigo pelo apartamento. Tínhamos um espaço de mais ou menos 10 passos, por isso, andávamos de lá para cá e de cá para lá, parando apenas durante as contrações.

Por orientação de Letícia, depois de um tempo de caminhada, começamos a dançar realizando movimentos circulares. Não posso dizer que aqueles foram os nossos melhores passos, mas com certeza era a dança mais importante que já havíamos protagonizado até então...

Abraçados, sussurrávamos as músicas da playlist. Falávamos sobre ter nosso filho nos braços e sobre a montanha-russa dos últimos dias.

Permanecemos ali por um longo tempo, alternando as microcaminhadas e as danças até que decidimos nos deitar um pouco. 

Apesar de não encontrar qualquer posição que tornasse a contração menos dolorosa, ela precisava tentar recuperar energias para quando viesse o momento do puxo.

No toque seguinte, descobrimos que a dilatação já havia evoluído bastante. Finalmente estávamos perto, mas então soubemos que havia uma última barreira, um último nível do colo pelo qual o bebê não estava conseguindo passar.

Letícia explicou que poderia realizar uma manobra para auxiliar a passagem do bebê. Durante a contração, Camila precisaria realizar o puxo, enquanto Letícia, com os dedos tentaria escorregar este último nível do colo pela cabeça do bebê, como se o auxiliasse a vestir uma camiseta.

Veio a primeira, a segunda, a terceira contração. As meninas sugeriram, então, que Camila mudasse para o banco. Talvez a gravidade ajudasse. Me posicionei logo atrás dela, apoiando suas costas e entregando mãos e braços para que ela apertasse o quanto fosse necessário. Mais uma contração. Outra. Outra. Outra. Mais uma. Mais outra. Apesar dos esforços de Letícia, Isabela e, claro, de Camila, Vicente não conseguia ultrapassar aquela última barreira.

As parteiras pediram a Camila que descansasse um pouco nas contrações seguintes e se afastaram um pouco. Mesmo falando numa voz muito baixa, percebi que elas estavam inquietas. Isabela pegou o celular e se dirigiu para a cozinha, enquanto Letícia, com o cardiotoco em mãos, veio em nossa direção. Vimos o coração do bebê batendo a 145 bpm e respiramos aliviados até que Letícia disse: “Cá, o bebê está bem, mas suas contrações estão começando a ficar um pouco mais espaçadas. Precisamos pensar na possibilidade de uma transferência para o Hospital”.

Camila chorou... Apertou o meu braço e chorou.... Disse que, depois de tudo, não era justo que Vicente nascesse fora de casa.

Ainda chorava quando veio a nova contração e, ao senti-la suplicou: “Podemos tentar mais um pouco?”.

Naquele momento, depois de tantas horas, da dor das contrações e do toque, Camila queria apenas mais uma chance de ter o parto com que ela sonhou.

Empurrávamos juntos enquanto Isabela e Letícia, alternadamente, repetiam a manobra. Repetimos até que, exausta, Camila concordou em partir para o Hospital.

Alcancei a mochila que havíamos montado com a certeza de não usar. Em outra, coloquei uma troca de roupas e o pijama de botão que Camila comprou como um “item indispensável para a amamentação”.

Encontramos os pais de Camila já no hall do prédio e, sem mais explicações (não havíamos contado para ninguém sobre o trabalho de parto), dissemos que estávamos indo para o Hospital.

A voz doce e atenciosa de Letícia, que tentava nos tranquilizar ao longo de todo o trajeto, contrastava com o estilo de direção “arrojado” adotado para atravessar a cidade já perto do rush do fim de tarde.

O waze nos guiava pelo caminho mais longo, porém menos congestionado. Antes que pudéssemos perceber, desembarcamos no pronto atendimento do Hospital.

A bordo de uma cadeira de rodas, Camila sorriu ao ver Taísa e Ana Paula Portela que, rapidamente, a levaram para os exames de admissão.

Com a chegada dos enfermeiros que a levariam para o centro cirúrgico, recebi um avental do Hospital e a tarefa de ajudar Camila a trocar de roupa. Entramos no banheiro, mas antes mesmo de realizar a troca, a mãe de todas as contrações apareceu. Camila gritou como não tinha feito até então e, enquanto eu a amparava, fomos alcançados pelos enfermeiros que, como num passe de mágica, não apenas terminaram de lhe colocar o avental como a botaram sobre uma maca.

No elevador nos separamos pela primeira vez desde que a aventura começou. Ao reencontrá-la no centro cirúrgico, decidi que não sairia do lado de Camila nem por um instante sequer.

Simpático, o anestesista Ticiano, nos explicou calmamente o processo de analgesia e, ao de iniciá-lo, nos deu 30 minutos para que pudéssemos nos preparar para o parto. Abraçados, parecíamos não acreditar em tudo o que havíamos vivido nos últimos dois dias, nem tão pouco nas mudanças que estávamos prestes a experimentar.

Logo, a equipe começou a retornar e sabíamos que o Vicente não demoraria a chegar. Taísa, nos explicou que como o TP estava bastante avançado, a quantidade de ocitocina sintética seria muito pequena, pois o parto precisava apenas de um “empurrãozinho”. Com a analgesia e o relaxamento, todas as barreiras haviam caído e o nosso pequeno já mostrava que estava pronto para vir.

Muito à vontade, Camila poderia parir como quisesse. Poderia ficar sentada, de quatro, de lado, mas curiosamente preferiu ficar deitada. A equipe, em volta de suas ancas, sem tocá-la de forma bruta, sem ordenar que fizesse isso ou aquilo, deixava claro que o parto seria dela e de mais ninguém.

Camila empurrou, como já havia feito tantas vezes em casa. Só que, diferente do que ocorrera até então, dessa vez o bebê veio. Pelo espelho ela pôde ver a cabeleira farta do pequeno e se emocionou. Na contração seguinte ele coroou.

Camila, que a esta altura apoiava as pernas nos ombros de Taísa e Ana Paula, custava a acreditar no que estava vendo pelo espelho e arrancou risadas de todos ao dizer:

- Gente. Realmente tem uma pessoa dentro de mim.

Beijei-lhe a testa e disse “Ele tá quase aqui.”

... às 19h34 seus ombrinhos passaram. Rosado e comprido, Vicente tossiu algumas vezes e bem rapidamente se pôs a chorar.

No colo de Camila, esticando as pernas pela primeira vez em muito tempo, ele chorava forte. O corpanzil rapidamente tomou para si o sangue que mantinha na placenta e o cordão rapidamente murchou.

Silvia, a pediatra que acompanhou todo o procedimento e que então nos tranquilizava, dizendo que ele era um garoto lindo e forte e, depois de algum tempo, me chamou para cortar o cordão umbilical, me estendendo uma pequena lâmina. 

A equipe, assim como Letícia e Fernanda, que sempre estiveram ao nosso lado, permaneceram ali sentados pelo centro cirúrgico. Falavam sobre a beleza do parto, sobre a força de Camila e sobre o tamanho de Vicente.

Eu olhava para Camila com uma admiração devotada. A força, a coragem, o instinto e o lado bicho somaram-se às outras tantas características que sempre me encantaram nela. Camila tornou-se, mais uma vez, um admirável mundo novo pra mim e foi absolutamente apaixonado por minha mulher que, pela primeira vez, peguei meu filho nos braços (depois dela, é claro).

terça-feira, 7 de julho de 2015

Pra começo de conversa

Ele escolheu o dia primeiro. Ele escolheu a segunda-feira.

Não veio na primeira hora, é bem verdade, mas nem o sol, que faz isso há muito tempo e repetidas vezes, aparece a essa hora...

Tossiu um pouco, enquanto a sala permanecia em um silêncio cheio de expectativa. 

Colocou-se a chorar, como que para agradar um público ávido por um antigo sucesso.

Camila o abraçou. Ela sorria como se não lembrasse das dores, das muitas horas desde a primeira contração, dos muitos medos deixados para trás e dos muitos medos previstos para frente...

Ela sorria como em todos os melhores momentos de nossas vidas.

Acho que, pra começo de conversa, foi pelo sorriso que ele a escolheu, e nessa história, quem deu sorte fui eu!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Dezesseis dias



Pode ser clichê... Quer dizer, não vou nem me dar ao trabalho de circunstanciar o fato. Ficar bobo com o poder transformador da paternidade É clichê e não vou tentar dizer qualquer coisa diferente.

Todos os alertas foram verdadeiros:

Sim. É algo que te deixa apaixonado de cara!

Sim. Dá medo!

Sim. Você começa a ver os pais (os seus e os demais) com outras cores!

Sim. Tudo isso acontece ao mesmo tempo.

Não. Você não está suficientemente preparado para este turbilhão, mas SIM, você vai adorar!

Hoje, pouco antes de sair para o trabalho, parei para olhar Vicente bocejando longamente, movimentando mãos que ele ainda nem sabe pra que servem (não tenho certeza nem se ele sabe que as tem), arqueando um pouco as costas e esticando as pernas como quem já tem experiência na arte de espreguiçar... Era como um ato meticulosamente ensaiado para encantar o pai-expectador...

Em 16 dias, Vicente já me mostrou muita coisa: agora sei que o coração é feito de um material maleável (capaz de esticar um monte, só para fazer caber mais amor); que a Camila é muito mais que o amor da minha vida e que, definitivamente, a gente tem uma sorte danada de tê-la por perto; que um abraço é fundamental (mesmo quando ainda não sabemos que se chama abraço); que as lágrimas possuem um poder de comunicação quase tão universal quanto a música; e que a felicidade pode ter muitos nomes, entre os quais, o dele.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Filhote

É o papai de novo. Sabe aquele cara a quem você chutou hoje de manhã? Então…

Não sei se você também tem esta impressão, mas às vésperas da 40ª semana de gestação, o tempo tem passado de forma diferente…

Acordamos inúmeras vezes (mesmo que, na maioria das vezes, só a sua mãe precise ir ao banheiro) e, ao longo do dia, ficamos atentos a qualquer movimento que não pareça com os que vimos até agora…

Longe de mim dizer que a minha ansiedade é maior que a da sua mãe, filho. Isso não só seria mentira, como também injusto…. Não sei se é cedo para uma lição como essas, então vamos voltar a estes pontos quando você estiver mais velho, ok?

O que eu queria que você soubesse é que, a cada manifestação sonora/luminosa/vibratória do meu telefone, sinto como se o meu coração urrasse/acendesse e tamborilasse mais forte do que o de costume.

Sei que está bem e confortável, mas saber que você pode vir a qualquer momento só me faz querer estar a postos… só me faz querer estar à disposição, sabe?

Não me entenda mal? Não quero que apresse absolutamente nada… Eu só queria que soubesse que estamos prontos (para começar, pelo menos).

Nos vemos em breve, filho.

Com amor,
Papai.

Postado antes no Essa Moça Tá Diferente

terça-feira, 12 de maio de 2015

Sobre o passado, o presente e o futuro* (uma carta para Vicente)


Oi, filho.

Sei que ainda não fomos formalmente apresentados…

Quer dizer…

Você já sabe bem o tom da minha voz, entende os beijos, risadas e esfregadas de mão nessa barriga que você chama de casa temporária.

É claro que, quando você puder ler e entender esta carta, você já vai ter uma boa ideia de quem são os seus pais…

Então, vamos fazer o seguinte: tente olhar para estas linhas como se elas fossem frestas em uma janela do tempo.

Através dela, você verá seu pai com quase 34 anos, contando as poucas semanas que faltam para o seu nascimento, inseguro por não saber se está fazendo o suficiente (por você e por sua mãe), mas extremamente feliz…

Combinado?

Sabe, Vicente? Hoje em dia, sua mãe e eu passamos horas imaginando como podemos prepará-lo para este mundão em que vivemos…
Na real, o que queríamos mesmo é preparar o mundo para você…
Não. Não estou falando em construir uma bolha e colar o seu nome nela. Acho que nossas experiências (tanto as da sua mãe quanto as minhas) foram e continuarão sendo valiosíssimas. Por isso, espero que você tenha coragem para viver as suas, extraindo delas sempre o melhor.

Quando falo em preparar o mundo, me refiro às coisas que eu realmente gostaria que mudassem antes de você chegar…

Queria que você pudesse viver em um lugar em que as pessoas se respeitassem mais e cuidassem uns dos outros… Um mundo em que a bondade, gentileza, carinho e sorrisos não fossem elogiáveis, mas sim corriqueiros…

Não sei se isso será possível, mas posso torcer e fazer a minha parte, não é?

Foi por isso que, conversando com sua mãe (que, btw, é a mulher mais extraordinária que você poderia escolher para o papel), me comprometi a fazer o possível para lhe ensinar a maior quantidade de coisas boas, que eu puder…

Talvez, depois de ler essa carta, você possa responder a questão que irá me acompanhar por anos…
Deu certo?

Espero que sim…
Sabe? Agora, pensando em você já crescido, percebi que, a essa altura, você já deve ter me ouvido dizer “eu te amo” algumas milhares de vezes…
No meu tempo, mesmo enquanto a sua carinha ainda é um mistério pra gente, não me canso de te falar sobre o meu amor por você…
É uma ligação incrível… Uma conexão que o seu pai de 2015 ainda não sabe explicar…
Talvez o do presente possa, afinal ele teve alguns anos a mais para entender como o mundo funciona…
E mesmo que não tenha entendido, de uma coisa eu tenho certeza: ele tem uma sorte imensa de ter vivido com você até agora, contando histórias e piadas, e entregando a você não apenas os beijos e abraços que eu venho guardando há 37 semanas, mas também aqueles que, sem saber, tenho esperado a vida inteira para te entregar.

Te amo, Vicente.

*postado antes no Essa moça tá diferente