terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Domingo

Eu não estava em casa. Por alguma dessas coincidências trágicas – não trágica como uma guerra, but still –, eu não estava lá.

O dia parecia ter selecionado as horas mais enfadonhas em um único e desconfortável conjunto e etiquetado com o meu nome.

Recebi o pacote com a carranca apropriada e passei a contar as horas pelo número de reclamações e bufadas que eu já emitia sem perceber.

A chuva, que fez questão de alcançar em dois pontos diferentes da cidade – como se soubesse que meu guarda-chuva estava em segurança, em algum lugar bem distante do meu mau humor – nem me surpreendeu. “Perfect”, pensei.

Cheguei em casa torcendo para que ali as horas voassem e eu pudesse riscar aquele dia para sempre.

Ao abrir a porta vi Camila sorrindo.

– Advinha quem ficou em pé sozinho pela primeira vez?

Sempre achei que apenas pessoas de capa poderiam salvar o dia. Camila e Vicente provaram o contrário.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Air Fight

O atraso já não era incomum. O sono também não -  pergunte a qualquer pai de um pequeno de sete meses (na verdade, pergunte para qualquer mãe... é melhor). Do ponto de ônibus já dava para ouvir a feira livre que, como em toda a quarta-feira, enche a rua do trabalho com vozes, cores e um maravilhoso cheiro de pastel.

Resisto à tentação de pegar um de calabresa com queijo, lembrando do compromisso assumido com os quilos a menos.  

Ainda luto contra minha memória gustativa, que tenta me arrastar de volta à barraca, quando desvio o olhar e reparo num garoto com, talvez, não mais que 12 anos. Encarando o muro, de costas para a agitação da feira, ele desfere golpes certeiros, dizimando uma verdadeira horda de inimigos imaginários.

São chutes, socos, raios e, claro, a reação dolorosa aos contragolpes dos malfeitores.

Que luta!

Subitamente, os pensamentos dedicados ao pastel mudam de rumo. Agora, sigo meu caminho, tentando resgatar brincadeiras de minha infância.... Mas não as coletivas. Tento lembrar dos dias chuvosos em que a rua permanecia deserta, ou das longas viagens de ônibus em que a única coisa a fazer era imaginar e viver minhas próprias aventuras.

Corto caminho por algumas barracas sem nem mesmo perceber, tentando fazer a conexão entre aquela imagem e todos os solos de air guitar, air bass guitar e air drums protagonizados por mim.

Chego ao portão da agência. Alcanço a chave no bolso e enfrento a também não incomum inabilidade de encaixá-la de primeira na fechadura.

Percebo um vulto passando rapidamente e, quando me viro, reconheço o garoto, com o punho cerrado e a mesma cara determinada com que descia o cacete em todo e qualquer vilão imaginário.

Não sei se a maratona de Daredevil tem alguma relação com isso, mas numa fração de segundos vi um moleque com um potencial imenso, tanto para Wilson Fisk, quanto para Matt Murdock.

O sorriso meio enviesado, já indicava suas intenções: num movimento rápido o soco veio, parando a poucos centímetros do meu queixo, enquanto ele sonorizava com um ruidoso “Phseeew”, depois do qual saiu em disparada.

O dia continuou a partir dali. O garoto, seguiu em sua cruzada, os feirantes continuaram vendendo e os consumidores seguindo comprando. Eu, sem saber se vilão ou mocinho, fiquei imaginando que se estivesse com a minha air guitar ao alcance das mãos, a história poderia ter um final muito diferente, ou -  na pior das hipóteses - pelo menos teria um solo de Bill e Ted!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Dadedá

–  Oi, meu filho! Tudo bem?

–  Dadéda.

–  O pai tava morrendo de saudades de você...

–  Dáde

–  Sua mãe me disse que você não deu um minutinho de paz para ela hoje!

...

–  Para de morder o fio do mouse, meu filho! Estou falando com você...

–  Pu brrr...

–  É claro que é ruim. Se não fosse assim, não haveriam mais mouses com fio

–  Déda...

–  Agora me conta: o que aconteceu? Por que você não se comportou hoje?

–  DadéDAAAA!

–  Não, Vicente. Chega de mouse por hoje.

–  Dadé

–  Isso. O leãozinho pode.

...

–  Quando eu disse “pode”, não era bem “pode arremessar”...

–  Déda...


–  É... Não dá pra conversar sério com você, filho.