– Ai... Ai...
– Joelho esquerdo de
novo, né?
– É...
– Bom... Eu disse para
você não vir!
– E eu te disse para calar a boca!
– Tá bem, sabidão!
Fique com dor, então...
– O que queria que eu fizesse?
– Que tipo de pergunta
é essa? Te dei uma vaaasta lista de opções...
– Vasta?
– Ok. Te disse apenas
para ficar na cama, mas se você queria tanto levantar, poderia ir até o sofá e
assistir um pouco de TV.
– E lidar com a ansiedade e a culpa no resto do dia? Não.
Obrigado
– Ok... Agora vai me dizer que será o Sr. Tranquilo
quando terminar...
– Ah! Quer saber? Cala a boca... Já estamos aqui e agora que
o corpo esquentou nem sinto mais dor...
– Você tá lento, né?
– Lento?
– É... Costumava fazer
o primeiro quilômetro em menos tempo... Acho que é natural, né? A idade chega
pra todo mundo?
– Do que você está falando?
– Nada... Quer
dizer... Aposto que você não alcança aquele cara lá na frente....
– Eu não preciso alcançá-lo e não estou correndo para fazer
tempo...
– Quer dizer que não
pode?
– Não. Quero dizer que não importa... Não é esse o
objetivo...
– Ok. Não está mais
aqui quem falou...
– Quem dera...
– Já sabe como
terminar o trabalho que precisa entregar hoje?
– Não... E você? Alguma ideia?
– Não, mas... Bom...
Talvez se parar agora, você possa começar a trabalhar um pouco mais cedo e
adiantar alguma coisa...
– Nem pensar...
– Por quê?
– Cara... Ainda nem amanheceu direito... Madruguei só para
poder correr sem interferir em outras atividades... Não vou deixar isso de lado
para começar a trabalhar mais cedo...
– Cuidado com o
carro...
– Tá vendo? Você está me distraindo e não está deixando eu
me concentrar...
– Eu?
– É... Preciso prestar atenção nos carros, nos buracos, nos
outros corredores, na minha respiração...
– E no trabalho?
– Não agora....
– Tá bom... Bom... Já
está melhorando o ritmo... Fez um segundo quilômetro muito bom...
– Obrigado...
– Vamos alcançar
aquele cara agora?
– Não! Bom... Quer dizer...
– Vamos... Você está rápido...
Olha como a distância diminuiu...
– Eu não queria forçar agora... Não quero quebrar no meio da
corrida...
– Não vai quebrar...
Aperta o passo...
– Tá bom... Vamos lá!
– Hááá... Garooooto...
– Yeah!
– Bom... Agora que
vencemos esse desafio, que tal melhorar esse pace?
– Não... Vou manter. Quero chegar inteiro na subida...
– Vai chegar sobrando,
cara... Você já fez o pior, agora vambora...
– Será?
– Claro... Você já fez
isso antes... Tá lembrado?
– Tô...
– BORA...
– Ai...
– O que foi? Joelho?
– É...
– Vamos completar o
terceiro...
– Não, cara... Posso ferrar ainda mais...
– Estamos tão perto...
– Estamos mesmo, né?
– E ai? O que vai ser?
– Vamos terminar este quilômetro...
– Boa...
– Tanto esforço e olha o cara me passando de novo...
– Não se preocupe,
amanhã pegamos ele...
– Obrigado por vir...
– Ah! Que se há de
fazer, né?
– Talvez terapia...
– Hahahaha... Sim... O
que você vai dizer? Que é bipolar? Que anda ouvindo vozes?
– Bom... Ou isso, ou posso me referir a você como um grilo
falante...
– Cala a
boca e vamos ali alongar...
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