sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Running with myself

– Ai... Ai...
Joelho esquerdo de novo, né?
– É...
Bom... Eu disse para você não vir!
– E eu te disse para calar a boca!
Tá bem, sabidão! Fique com dor, então...
– O que queria que eu fizesse?
Que tipo de pergunta é essa? Te dei uma vaaasta lista de opções...
– Vasta?
Ok. Te disse apenas para ficar na cama, mas se você queria tanto levantar, poderia ir até o sofá e assistir um pouco de TV.
– E lidar com a ansiedade e a culpa no resto do dia? Não. Obrigado
Ok...  Agora vai me dizer que será o Sr. Tranquilo quando terminar...
– Ah! Quer saber? Cala a boca... Já estamos aqui e agora que o corpo esquentou nem sinto mais dor...
Você tá lento, né?
– Lento?
É... Costumava fazer o primeiro quilômetro em menos tempo... Acho que é natural, né? A idade chega pra todo mundo?
– Do que você está falando?
Nada... Quer dizer... Aposto que você não alcança aquele cara lá na frente....
– Eu não preciso alcançá-lo e não estou correndo para fazer tempo...
Quer dizer que não pode?
– Não. Quero dizer que não importa... Não é esse o objetivo...
Ok. Não está mais aqui quem falou...
– Quem dera...
Já sabe como terminar o trabalho que precisa entregar hoje?
– Não... E você? Alguma ideia?
Não, mas... Bom... Talvez se parar agora, você possa começar a trabalhar um pouco mais cedo e adiantar alguma coisa...
– Nem pensar...
Por quê?
– Cara... Ainda nem amanheceu direito... Madruguei só para poder correr sem interferir em outras atividades... Não vou deixar isso de lado para começar a trabalhar mais cedo...
Cuidado com o carro...
– Tá vendo? Você está me distraindo e não está deixando eu me concentrar...
Eu?
– É... Preciso prestar atenção nos carros, nos buracos, nos outros corredores, na minha respiração...
E no trabalho?
– Não agora....
Tá bom... Bom... Já está melhorando o ritmo... Fez um segundo quilômetro muito bom...
– Obrigado...
Vamos alcançar aquele cara agora?
– Não! Bom... Quer dizer...
Vamos... Você está rápido... Olha como a distância diminuiu...
– Eu não queria forçar agora... Não quero quebrar no meio da corrida...
Não vai quebrar... Aperta o passo...
– Tá bom... Vamos lá!
Hááá... Garooooto...
– Yeah!
Bom... Agora que vencemos esse desafio, que tal melhorar esse pace?
– Não... Vou manter. Quero chegar inteiro na subida...
Vai chegar sobrando, cara... Você já fez o pior, agora vambora...
– Será?
Claro... Você já fez isso antes... Tá lembrado?
– Tô...
BORA...
– Ai...
O que foi? Joelho?
– É...
Vamos completar o terceiro...
– Não, cara... Posso ferrar ainda mais...
Estamos tão perto...
– Estamos mesmo, né?
E ai? O que vai ser?
– Vamos terminar este quilômetro...
Boa...
– Tanto esforço e olha o cara me passando de novo...
Não se preocupe, amanhã pegamos ele...
– Obrigado por vir...
Ah! Que se há de fazer, né?
– Talvez terapia...
Hahahaha... Sim... O que você vai dizer? Que é bipolar? Que anda ouvindo vozes?
– Bom... Ou isso, ou posso me referir a você como um grilo falante...
Cala a boca e vamos ali alongar...

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